Era o Hotel Cambridge

Eliane Caffé, também diretora do belíssimo Narradores de Javé (2003), problematiza novamente questões políticas atuais no Brasil, através da realidade das ocupações e dos paradoxos sociais urbanos. As primeiras imagens do filme surgem para nos fazer imergir na cidade, o edifício é o protagonista, tomadas paradas e silenciosas nos fazem refletir por alguns segundos: as fachadas, o concreto emoldurando a paisagem, as janelas, e os prédios que cortam o céu de São Paulo. Nos minutos iniciais os múltiplos personagens são apresentados, imigrantes, refugiados e brasileiros dividem o mesmo prédio ocupado, suas diferenças se manifestam carregadas de preconceitos.

Uma ficção com cara de documentário ou um documentário com ares de ficção, deixando de lado os “encaixotamentos” que o cinema nos reserva, o filme trata sobre pessoas, é um filme sobre luta e sobre as identidades diversas que habitam as cidades grandes. Se passa em São Paulo nesse caso, mas poderia ser qualquer outra grande cidade de um país com os mesmos problemas estruturais e sociais, desigualdades e desrespeito.

Uma ocupação no Centro da cidade é o cenário, o prédio que até 2002 era o Hotel Cambridge, e em 2012 foi ocupado por famílias sem teto. Durante todo o filme, enquadramentos externos do prédio se fundem às histórias vividas lá dentro. O céu visto pelo vão do edifício, as janelas lado a lado, por onde saltitam luzes de algum cômodo, pessoas habitam aquele quarto, vidas compõem aquele cenário. Escadas numa espiral, grades. O som seco que corta as cenas, como um portão pesado que se fecha em meio ao murmúrio da multidão, o eco das vozes que lutam diariamente pelo direito à moradia.

O elenco é composto, em sua maioria, por personagens reais que interpretam a si mesmos. Com a participação especial dos atores José Dumont, como Apolo, Suely Franco, como Gilda, e atores novos no cinema nacional, como Juliane Arguello, que interpreta Uta, e Gabriel Tonin, como Kleiton.

As vidas incertas na ocupação se abalam quando surge a notícia do despejo. A vida segue. O sonhador professor de teatro, Apolo, continua a alimentar as almas de seus alunos através da arte, de sua experiência e de histórias, transcendem juntos os limites físicos do corpo com a imaginação. A arte surge como na vida, momentos de refúgio dentro da tensão existente na ameaça de perderem seu lar. O personagem colombiano fala com uma amiga pelo Skype, que canta uma música triste e intensa do outro lado do mundo, enquanto uma pequena platéia se aglomera para observar em frente a tela do computador da ocupação. O computador é uma janela para o mundo, pela qual os refugiados entram em contato com suas famílias. Mas esse mesmo computador também desvela as janelas do desrespeito. Em uma outra cena, Apolo lê as mensagens de ódio deixadas na página da internet com fotos, vídeos e informações sobre as pessoas que residem no antigo hotel.

O filme retrata perfeitamente algumas ironias do mundo capitalista atual, que os personagens narram para o espectador. O refugiado do Congo se afastou de seu país devido a guerra que foi gerada pela exploração do minério utilizado para fazer as telas de celular, esse mesmo que ele usa agora para se comunicar com as pessoas que deixou para trás.

Os choques culturais são nítidos entre imigrantes e brasileiros. Existe um atravessamento de identidades, e as fronteiras se deslocam, como nas cenas de discussão sobre comidas típicas, na mistura das línguas faladas e nos modos de agir. O desrespeito com o outro diferente começa dentro da própria ocupação, pelos brasileiros que se veem tendo que lutar pelos seus direitos e não querem lutar pelos refugiados também. O rompimento desse comportamento se dá a partir da fala da líder da Frente de Luta por Moradia (FLM), Carmen Silva: “Brasileiro, estrangeiro… Somos todos refugiados, refugiados da falta dos nossos direitos”. Lá só existe um coletivo, e os brasileiros são refugiados também dentro do seu próprio país.

A questão política da luta pela moradia fica clara na cena da assembléia, no incentivo à luta por parte dos líderes do movimento, e nas bandeiras vermelhas estendidas nas fachadas, as tensões existentes no Brasil saltam da tela do início ao fim. Como no momento em que os moradores do hotel se organizam para ocupar outro prédio, a “festa”, como chamam. “Vá pra dentro de sua casa”, grita a nordestina Carmen, enquanto as pessoas correm para ocupar o edifício. A perspectiva dos refugiados é demonstrada no discurso de Hassan, interpretado pelo professor palestino Isam Ahmad Issa, ele se sente agora parte de um movimento de ocupação, tomando um espaço para ele, quando por toda a sua vida tudo lhe foi tirado.

O filme se propõe a retratar as relações humanas e refletir acerca dos espaços em que habitam. Com a devida relevância de todas as questões que ele aborda, sobre o valor de cada indivíduo, a empatia com o próximo, a luta coletiva, o direito à moradia e de manter a dignidade, o filme é além disso, um retrato da selva de concreto que abriga a gente, toda gente. Na arte e na realidade, a cidade é poesia visual.

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