A Memória que Me Contam

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Inaugurando a sessão que vai falar sobre filmes mais antigos, mas não menos interessantes, com a obra belíssima de Lúcia Murat, A Memória que Me Contam, de 2012. Lúcia carrega o peso de ter sido torturada na ditadura militar, o que reflete na criação dos seus filmes.

O filme levanta o tema do comunismo com sutileza, trabalhando com o passado e o presente. Ana é uma guerrilheira que foi torturada durante a ditadura militar, o que lhe traz sequelas físicas e principalmente psicológicas. Sua história vai sendo percebida ao longo das horas de filme, nada é fornecido prontamente. A forma como a história é contata é o que faz esse filme ser especial, uma colagem de memórias, contadas pela jovem Ana revolucionária, abusando de sons metadiegéticos, como num quebra-cabeça o espectador vai juntando com o que os outros personagens narram sobre o passado, e aos poucos vamos conhecendo a história de uma vida de luta.

O filme começa com o mar. Esse fato denota uma constante nos filmes brasileiros produzidos nos últimos anos. Acredito que seja para enfatizar essa beleza que caracteriza o Brasil, e ao mesmo tempo, por ser um elemento tão rico em metáforas. A primeira cena do filme, já o apresenta cheio de possibilidades. A fotografia do filme, azul acinzentada e úmida em sua maioria, acompanha a ideia do mar.

A protagonista Ana logo no início relata que desde pequena queria dividir as suas coisas, em determinado ponto fala que dois conjuntos de terno podem fazer a felicidade de quatro pessoas. Reflete a partir dessa linha tênue, o ato de fazer caridade e o de fazer revolução.

A Memória que Me Contam é um filme sobre a ditadura, mas consegue abordar essa temática já bastante explorada no cinema sob outra ótica: o que fazem atualmente, como vivem e o que se tornaram os companheiros guerrilheiros de um determinado grupo, tantos anos depois da ditadura militar? Há os que ainda mantêm os mesmos ideais políticos, e outros que mudaram quase completamente.

O filme carrega o peso de ser baseado na própria experiência de vida da diretora, mas poderia ter sido baseado em todos os fatos reais que existiram e existem por aí. Afinal, o cinema nunca deixa de nos surpreender. Quando achamos que esgotaram as possibilidades de fazer história sobre um determinado tema, eis que ele nos surpreende com sua infinidade criativa.

A escolha de Simone Spoladore para o papel de Ana, o elo principal entre os personagens do filme, foi perfeita. Simone brilha na atuação com a melancólica Ana, e estética e fisicamente parece saída dos anos 60/70. A carga de poesia que ela deposita no olhar, fornece a profundidade necessária para a atmosfera do filme.

No mais, o elenco é pesado em brilhantismo: Irene Ravache, Otávio Augusto, José Carlos Machado, entre outros, e não poderia deixar de mencionar, Miguel Thiré no papel do homossexual assumido Eduardo, primeira interpretação que percebí forte e genuína de Thiré, que de forma sutil, interpreta com Patrick Sampaio um casal comum que vive um relacionamento feliz, sem alardes.

Como pano de fundo o filme trabalha com duas gerações em contraste, os velhos e experientes guerrilheiros, e seus filhos, jovens, artistas, que moram na Europa apenas por vontade. A estética dos manifestos e a arte como política são pontos abordados nesse contraste. O que é fazer política de fato? Isso se diferencia de falar sobre política através da arte? O filme salienta para a dicotomia entre esses jovens que querem inspirar e inquietar pela arte, enquanto seus pais pegavam em armas e iam a luta por seus ideais políticos. É interessante ver como a diretora explora essas questões muito claras nas duas gerações em questão. E assim, Ana se questiona: Será que tudo que foi feito valeu a pena? E se todo aquele sacrifício foi em vão? Como saber quando é o tempo de mudar ou de desistir?