Por que ter uma mulher como protagonista em “Star Wars” importa

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Talvez você já tenha lido por aí, em algum tuíte ou post, que “Star Wars: O Despertar da Força” passa no teste de Bechdel (ou talvez você nunca tenha ouvido falar do teste, que examina filmes segundo alguns critérios: a produção tem que apresentar pelo menos duas personagens femininas com nomes, que conversem entre si sobre algo que não seja um homem).

Com a solitária catadora de sucata Rey, interpretada pela inglesa Daisy Ridley, 23, o sétimo episódio da saga faz bonito no teste. E isso não é pouca coisa, porque a maior parte dos blockbusters não supera nem uma avaliação tão simples como essa, como é o caso da própria Trilogia Clássica de “Star Wars” –sorry Leia…

“E daí?”, os haters já estão questionando internet afora. “Ninguém se importa se a protagonista é mulher, a gente só quer saber se o filme é bom”.

Bem, se vocês estão realmente preocupados com isso depois das várias resenhas positivas que já foram publicadas, eu repito que o filme é bom sim. Mas vocês estão errados: assim como eu, milhares de mulheres e meninas em uma galáxia nem tão distante se importam sim em ver uma garota como foco de uma franquia que arrebata tanta gente.

Vale lembrar que, além de sermos metade da população do mundo, já somos maioria nas salas de cinema pelo menos no Brasil e nos Estados Unidos. Mesmo assim, só 12% das protagonistas dos filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos em 2014 eram mulheres, e mesmo nos papéis menores, elas foram somente 30% dos personagens com falas.

Então, já passou da hora dos grandes estúdios fazerem algo pela maioria do público, né? E melhor ainda se for na maior franquia pop do cinema de todos os tempos –e possivelmente o filme de maior bilheteria da história.

Cultura pop é assunto sério

“Ai, mas essas feministas só querem saber de mimimi. Por que não falam de assuntos sérios, como as mulheres espancadas etc. etc. etc.” É claro que a gente fala de assunto sério também. Mas quem disse que cultura pop não é assunto sério? 

Diferentemente do que muita gente pensa, cultura pop não são só produtos enlatados, feitos para dar lucro a grandes conglomerados de mídia como a Disney. Cultura pop é uma coisa dinâmica, viva, que entra na vida de bilhões de pessoas no mundo todo, e isso tem consequências.

A cultura pop importa porque ela não só reflete e valida o espírito da nossa época, mas também cria representações que ajudam as pessoas a construir suas identidades. Muito do que a gente acredita sobre “como a vida deve ser vivida” vem de filmes, novelas, séries, músicas, desenhos animados, quadrinhos etc. que consumimos ao longo da vida e que vão moldando nossa visão de mundo e nossas expectativas.

Mas o que acontece quando essas representações são majoritariamente masculinas, e só mostram um tipo de masculinidade (branca, heterossexual e muitas vezes agressiva e desprovida de sensibilidade)? O que acontece se as mulheres aparecem mais como enfeites do que como pessoas complexas e variadas? Se elas são quase sempre a namorada, a mãe, a esposa ou alguém que só existe em relação a um personagem masculino?

Não pode ser bom, né? Porque as meninas que assistem ou leem essas versões limitadas da identidade feminina correm grande risco de achar que ser mulher é só aquilo, e vão se sentir muito deslocadas se não se encaixarem nesses modelos.

Foi por isso que saí feliz da exibição para a imprensa de “O Despertar da Força”, questionando se a maioria esmagadora de jornalistas homens presentes ali tinha se dado conta do avanço que o filme representa na questão da representatividade.

Porque Rey não é só a protagonista — ela é também uma personagem que não escorrega nenhuma vez nos estereótipos que marcam a presença de mulheres no cinema.

ATENÇÃO, SPOILERS! SE VOCÊ NÃO QUER SABER DETALHES DO FILME, NÃO CONTINUE A LER

Sem estereótipos

Rey foi abandonada por sua família no desértico planeta Jakku quando era criança e aprendeu muito cedo a se virar sozinha. Ela é ótima com mecânica, sabe pilotar naves e manda bem até nas lutas –afinal, uma garota precisa saber se defender em um mundo hostil.

Ok, vocês vão dizer que a princesa Leia já era tudo isso na Trilogia Clássica, deixando Han Solo e Luke Skywalker no chinelo no quesito pontaria. Mas mesmo assim ela não escapou de ter sua sexualidade explorada (quem não se lembra do famigerado biquíni dourado), para fazer brilhar os olhos dos meninos, maioria do público na época, e também caiu na armadilha da “donzela em perigo” em algumas cenas, tendo que ser salva pelos verdadeiros protagonistas.

Mas Rey não cai em nenhuma dessas armadilhas. Ela não precisa ser salva em nenhuma ocasião, e o filme até brinca com isso, em cenas como a primeira vez em que ela encontra Finn, o stormtrooper desertor vivido por John Boyega. Rey é atacada por capangas do dono de um ferro velho e Finn corre para salvá-la –mas a briga acaba antes mesmo de ele alcançá-la, com a garota vitoriosa, claro.

Seu figurino também não é nunca feminizado nem sexualizado –são roupas práticas, como deveriam ser para alguém que ganha a vida procurando sucatas em lugares inóspitos–, e nem mesmo sua vida romântica está em questão, ao menos neste momento, em que o relacionamento que realmente importa é a forte amizade que Rey e Finn constroem.

Poderíamos até dizer que Rey transcende a questão de gênero, o que não é o mesmo que dizer que a personagem poderia ser homem. Não, ela não é uma dessas “protagonistas femininas fortes”, que na verdade são personagens masculinizadas. Seus momentos de vulnerabilidade e melancolia jamais poderiam ser confundidos com o estereótipo de protagonistas masculinos de filmes de ação ou fantasia.

Além disso, “O Despertar da Força” reserva a Rey alguns dos ritos de passagem que antes só foram vividos pelos homens de “Star Wars” (se você chegou até aqui, já sabe que é ela que vai ser treinada para tornar a nova Jedi).

Mais mulheres

Esses ritos incluem a primeira cena que garante a aprovação do filme no teste Bechdel: o encontro de Rey com o personagem sábio que vai lhe revelar seu destino, desta vez encarnado por Maz Kanata, uma pirata de mais de mil anos, interpretada, via computação gráfica pela atriz de origem queniana e vencedora do Oscar Lupita Nyong’o.

Remete, claro, ao encontro de Luke com Yoda, mas traz um outro nível de sensibilidade, que faz da sequência algo revigorante em vez de mera repetição ou referência, e a coloca lado a lado com a cena que eu considero a mais emocionante do filme, quando as protagonistas de duas gerações diferentes finalmente se encontram, em um abraço cheio de subentendidos.

E este é outro ponto positivo do filme: Rey não está sozinha em mundo masculino, como Leia estava. Nos filmes clássicos da saga, desconsiderando a princesa, outras mulheres com falas aparecem durante minguados 63 segundos –sim, você leu certo. Mas neste temos também a presença da própria Leia (Carrie Fisher), agora general da Resistência, e a aparição da primeira vilã feminina de “Star Wars”, a capitã Phasma (Gwendoline Christie, de “Game of Thrones”), líder do exército de stormtroopers, com sua incrível armadura prateada, que esperamos ver mais nos próximos filmes.

Mais diversidade

E “O Despertar da Força” não para por aí: Finn, que é uma espécie de co-protagonista, é vivido pelo jovem ator britânico de origem nigeriana John Boyega, e a origem do personagem faz eco com as histórias reais de crianças raptadas para se tornarem soldados em países africanos em guerra civil. Completando o trio “do bem” da nova geração, o melhor piloto da Resistência, Poe Dameron, é interpretado pelo ator guatemalteco Oscar Isaac.

Os figurantes também são muito mais diversos, com caçadoras de recompensas e pilotos mulheres, comandantes asiáticos na Resistência, oficiais negras, sem forçação de barra, tudo de uma maneira muito natural, que reflete a diversidade de um mundo globalizado e misturado como o nosso.

Nada disso é por acaso, claro, e revela uma intenção ativa do diretor J.J. Abrams e da produtora Kathleen Kennedy, ambos preocupados em criar um universo que represente melhor a diversidade do mundo real.

Não é só para vender mais bonequinhos da Rey para as meninas –embora seja legal pra caramba que as garotas aventureiras possam se imaginar como ela, em vez de ter que inventar uma versão feminina de Han Solo ou Luke Skywalker.

Abrams e Kennedy entenderam que essa estratégia ajuda não só a conquistar mais público –e, consequentemente mais $$$–, mas que fugir dos estereótipos geralmente resulta em filmes melhores, com histórias mais complexas e profundas, com as quais mais gente vai se identificar e com mais chances de deixar marcas duradouras na cultura.
E os haters que ainda não entenderam isso podem derramar suas lágrimas no Twitter à vontade, enquanto perdem o bonde da história.

via

Editora-chefe do site e bacharel em Estudos de Mídia pela UFF, produz conteúdo para web desde 2012. Curiosa e apaixonada por cinema, escreve aqui em sua ''Coluna Clichê'' sobre os filmes que assiste no cinema e na TV. Também colabora com o blog de design e inspirações CuteDrop.

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