Que Horas Ela Volta?

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*Essa crítica foi feita em parceria com a super talentosa Moni Oliveira.

O filme queridinho do Brasil no momento e possível candidato ao Oscar 2016 na categoria de melhor filme estrangeiro. Fala da questão socioeconômica presente em tantos países, subdesenvolvidos como o nosso, através de fortes estereótipos.

A pergunta que é feita diariamente por tantos filhos que são criados por mães que não são as suas: Que horas ela volta? O título não pega muito, é meio confuso, e as pessoas têm dificuldade em lembrar, mas faz sentido e sintetiza a narrativa. Val, Interpretada por Regina Casé, é uma empregada doméstica de uma família rica de São Paulo, que deixou sua filha em Pernambuco e não a vê há mais de 10 anos. Quando a filha, Jéssica (Camila Márdila) vem para São Paulo prestar vestibular, provoca um turbilhão de mudanças nos paradigmas sociais impostos por todas as partes.

Jéssica surge para transformar as relações na casa grande. A filha da empregada, que é letrada e vai tentar entrar na mesma faculdade que o filho dos patrões. Sua inteligência lhe conduz ao nível daqueles que possuem o capital. Ela, naturalmente, não se conforma com o fato da mãe aceitar ser tratada daquela forma, e ainda achar certo. Com a ajuda dela, Val vai percebendo a situação em que se encontra.

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O filme aborda as questões com uma delicadeza ácida, um tema tão comum no Brasil e enraizado na nossa cultura: a diferença social acompanhada da indiferença pelo próximo.

Devo assumir, mesmo muito a contragosto, que Regina Casé está ótima no papel, lhe caiu como uma luva. Ela soube desenvolver muito bem a personagem, tanto psicologicamente como nos gestos, falas e modos que formam sua personalidade. Sem contar, que fisicamente ela é a própria miscigenação do povo brasileiro. A diretora Anna Muylaert fez uma escolha bem acertada para a protagonista, além de Camila Márdila, que brilha no papel de Jéssica, sendo uma figura chave na história, trazendo com sua juventude uma indignação que tem embasamento político e sai da óbvia revolta adolescente esperada.

A figura do menino, Fabinho, é onde Val deposita todo o afeto que desviou da distante criação de Jéssica. O menino precisa dela para tudo, seja para fazer um sanduíche, ou para conseguir dormir. Ele tem por Val mais carinho e mais confiança do que na própria mãe. No entanto, ele sequer olha para a empregada ou pergunta como ela está, sua relação de afeto é uma via de mão única.

É nas figuras dos patrões que Anna Muylaert cai no clichê. Muitas vezes é exagerada a maneira como a patroa, interpretada por Karine Teles, trata Val. Ela é grosseira, indelicada e preconceituosa, além de humilhante. Não tem graça, é triste. Já Lourenço Mutarelli, perfeitamente confortável no papel, o também escritor desempenha o papel que se lê facilmente: o velho babão rico e entediado.

As falas preconceituosas da patroa não são veladas. É um filme pronto para o espectador, nenhuma metáfora é complicada de ler, tudo é bastante óbvio. Jéssica entra na piscina, todos entram em desespero. É proibido, ela não pode se divertir na casa dos patrões da sua mãe. No dia seguinte a patroa manda esvaziar a piscina. “Caiu um rato”, ela diz. Está tudo claro e mastigado ao longo do filme, o que dá a impressão de um exagero na narrativa. Tudo é dito.

Deve-se levar em consideração que o filme foi lançado primeiro fora do Brasil, foi um sucesso no exterior, ganhou prêmios no Festival de Berlim e Sundance. A diferença entre a nossa cultura, com a crescente desigualdade social, e a cultura dos países que fizeram o filme ter grande repercussão, é talvez o catalisador do seu sucesso: é exótico, é diferente, além é claro, de ser chocante. O nosso vínculo com o filme é mais íntimo, com os atores e principalmente com as relações ali retratadas. É uma reflexão sobre a estupidez humana dentro da nossa própria casa.

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Segundo Moni Oliveira:

O filme traz uma discussão essencial para os dias de hoje. Falar dessa relação de poder tão forte e naturalizada no Brasil é colocar o dedo na ferida sem dó nem piedade. É levar um tapa na cara por não se atentar aos pequenos detalhes do dia a dia que, as vezes, até quem se diz livre de preconceitos acaba reproduzindo.

Ele é direto! Mostra a cara brasileira, mais do que qualquer uma novela da “zona sul” mostraria. Uma nordestina, que em busca de uma vida melhor para ela e a filha, abandona sua cria para criar o filho dos patrões. Jéssica por sua vez busca uma vida melhor também, mas com uma diferença: a mãe já acostumada a ser inferior, abaixa a cabeça para se manter onde chegou. A filha chega com tudo, mostrando que não é inferior apenas por ser filha da empregada e enfrenta inclusive a própria mãe que de tanto sofrer com essa situação, já nem percebe que está ensinando à filha o sentimento de inferioridade.

Não podemos deixar de falar também da Anna Muylaert, que escreveu e dirigiu essa maravilha. Ouso dizer que esta é a obra de sua vida até então. Empoderada, chegou a enfrentar o machismo de alguns nomes do cinema brasileiro em uma das divulgações e tem tudo para ir muito mais longe. Que bom para nós, que bom para o cinema nacional.

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Além de tudo isso, o longa tem chances de ganhar o Globo de Ouro e o Oscar. Nós estamos na torcida. Se tem algum filme que merece ganhar esses prêmios, esse filme é “Que horas ela volta?”.

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