Yo Soy Sola

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O filme argentino Yo Soy Sola de 2008, da diretora Tatiana Merenuk é uma comédia dramática sobre a vida moderna. No melhor estilo “sessão da tarde”, começa com quatro meninas ainda pequenas brincando de ser gente grande, maquiadas, arrumadas e contando sobre as suas vidas felizes, a cena se funde com elas mais velhas, rindo e fazendo a mesma brincadeira, ainda projetando as suas vidas idealizadas e felizes. Interessante ver o que é a felicidade para cada uma: um amor, dois gatos, um emprego maravilhoso e por aí vai…

O filme é dividido em quatro partes, contando a historia pela visão de cada uma e suas vidas reais, nem tão perfeitamente felizes como nos sonhos. Vera ( Eugenia Tobal) não possui o relacionamento que idealizou, tenta com todas as forças fazer o seu relacionamento amoroso dar certo. Lina ( Olívia Molina) vive no mundo da imaginação, sonhando com o famoso apresentador da televisão, com o príncipe encantado que vai tirá-la da vida monótona em que vive, se apega a religião, a velas, santos, promessas e simpatias para tentar mudar a sua vida.
Mara ( Mara Bestelli) é a acadêmica, e com ela surge a questão do feminismo. Nesse ponto o filme traz a maternidade vinculada a idéia de submissão aos homens, na visão de determinadas escritoras feministas. Mara, em contraposição a tudo isso, vai ser mãe, um fruto da produção independente. Inés ( Moro Anghileri) sempre sonhou com seu casamento, mas nem tudo sai como imaginamos, e nem todos os sonhos se realizam.

O filme corre o risco de ser uma comédia vazia mas em determinado ponto consegue ter um toque de profundidade e fugir do óbvio, ao tratar de assuntos como a produção independente, de um lado o feminismo, do outro a mulher que sonha em ser perfeita em casa e no trabalho na figura de Rita que tenta se dedicar mais ao marido, ao mesmo tempo em que não consegue nem fazer um bolo dar certo, no fato do marido perceber o quanto essas tentativas de ser a mulher perfeita importam menos do que ela ser ela mesma. Sem nenhum exagero filosófico, o filme permeia essas questões, e parece sempre querer tocar no ponto entre a independência da mulher na sociedade atual e o que ainda a prende às convenções sociais, o sentimento de culpa de querer ser sempre perfeita em todas as esferas, e a vontade de viver uma vida idealizada que na prática é muito menos saborosa.

É uma pena que em 97 minutos de filme não dê para aprofundar muito nessas questões. Ainda assim, isso é o que faz o filme sair da futilidade do cinema comercial, além da pitada latina que fica clara na sua estética e na imersão dos personagens, detalhes que não passam despercebidos, como o abuso da cor vermelha na indumentária e no cenário, uma característica forte dos filmes latinos em geral.

A leveza do filme está em retratar a amizade das quatro mulheres, o carinho e o apoio que possuem nos momentos em que tudo parece desandar. No entanto, o seu ponto forte é abordar a vida da mulher contemporânea, que além de cuidar da casa, trabalhar fora, cuidar de sí, ainda sonha, sempre com uma vida melhor e mais leve. Posso dizer como mulher, que é impossível não se ver um pouco em cada uma delas.

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