Amores Urbanos

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O primeiro longa dirigido por Vera Egito narra a vida de três amigos e vizinhos que estão beirando os trinta anos, as angústias de serem jovens nem tão jovens, sem filhos, sem perspectiva de relacionamentos concretos, com receio de responsabilidades, sem saber ao certo o que fazer e o que querer pro futuro, uma crônica que sintetiza muito bem essa fase da vida na atualidade de uma grande cidade brasileira, como São Paulo.

Através de diálogos muito bem construídos, os personagens Diego, vivido por Thiago Pethit, Júlia (Maria Laura Nogueira) e Micaela (Renata Gaspa) inquietam os espectadores diante da superficialidade das relações atuais retratadas, do sexo e do álcool como mecanismos de defesa e consolo, e do alívio de possuir amigos com quem se possa rir e chorar ao se deparar com situações difíceis. Ana Cañas também está no elenco, como a namorada de Mica, que não consegue assumir o namoro, o que permite ao filme fazer uma crítica muito pertinente ao egoísmo dos relacionamentos comandados por pessoas autocentradas.

A temática, bem contemporânea, conta também como é chegar aos trinta nesse mundo onde a internet é uma extensão da vida quase mais importante do que a própria existência, seja na quantidade de seguidores no Instagram, nas fotos postadas, ou na mudança de status que acompanha e dita o que se faz da vida, e com quem se relaciona.

O filme é questionador ao colocar em foco certas crises que acometem os personagens, tão infantis que beiram o cômico, personalidades mimadas que são colocadas em confronto com situações duras e de real sofrimento, criando um paradoxo que serve como um belo tapa na cara.

Há a forte presença da cor azul em suas mais variadas tonalidades, elementos no cenário, iluminação e na indumentária dos personagens contribuem com a atmosfera de frieza do ambiente. A vida em São Paulo não é cinza, é azul como o céu na noite urbana. A trilha sonora conta com algumas músicas de Thiago Pethit, como não poderia deixar de ser.

A obra permanece inovadora e inclusiva ao abordar pontos de vista distintos dentro de relacionamentos vividos por uma personagem heterossexual, um gay e uma lésbica, trazendo suas diferenças nas relações, tanto na questão do gênero quanto nas questões sexuais e sentimentais.

Definitivamente o filme vai fazer um sentido reconfortante para aqueles que estão inseridos nessa faixa etária, com uma enxurrada de momentos de identificação que vão render boas risadas: pelo menos ninguém está sozinho. A realidade de se deparar sempre com as dificuldades e corações partidos, mas ir levando com bom humor, ainda querendo curtir a vida e a noite como se fosse adolescente, beber todas e depois ter que lidar com as consequências dessa farra

Com trinta anos já não se tem mais a vida toda pela frente, muitas escolhas foram erradas, muito já não aconteceu como se previa, e o que o filme diz é que nem tudo vai ser do jeito que se havia imaginado. Mas está tudo bem.

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