O Passado

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O Passado ( Le Passé) é um filme francês do cineasta iraniano Asghar Farhadi, conta uma história de amor e culpa e de como tudo aquilo que acontece na vida pode modificar a forma como o presente se desenrola, no melhor estilo causa e consequência. Ahmad, interpretado por Ali Mosaffa, volta do Irã para a França depois de anos de separação a pedido da ex-mulher, Marie, para oficializar o divórcio.

Bérénice Bejo, que interpreta Marie, leva à personagem um desequilíbrio emocional que quase chega a ser histérico, se preocupa, sofre, por vezes grita com as crianças e logo se arrepende, não larga o cigarro mesmo grávida, suas emoções estão constantemente à flor da pele. Ahmad, por outro lado, é sempre calmo e centrado, atua como um solucionador dos problemas do passado.

Inicialmente ficamos sem entender muito bem que tipo de relação Marie e Ahmad possuem, mas conforme os cenas se desenvolvem vamos percebendo devagar as sutilezas de sua relação conflituosa e ao mesmo tempo a compreensão mútua dos motivos que levaram ambos a agirem de determinada forma no passado, bem ao estilo dos filmes franceses muitas coisas só ficam claras depois de algumas horas sentados na poltrona do cinema. O relação triangular que é criada entre os dois e Samir, futuro marido de Marie, é delicada e bastante esquisita. O diretor brinca com essa relação, colocando Marie ora na posição de mediadora, ora desafiadora dos limites emocionais de ambos, até que ponto o atual pode aceitar que o ex entre na sua vida? A presença da culpa pelo passado mal resolvido permeia toda a narrativa.

Em determinado momento Ahmad parece ficar em dúvida se fez a coisa certa e tenta consertar o estrago nas mentes e corações que foram abandonados. É quando ganha espaço a participação notória de Pauline Burlet, como Lucie, a filha mais velha de Marie, que aliás se parece muito fisicamente com Bérénice. Pauline da vida à menina adolescente, que usa sua rebeldia como fuga do peso de suas atitudes passadas, consegue demonstrar com êxito toda a sua tristeza, dor, e mais ainda a sua dúvida. Não era de se espantar, uma vez que a menina já dizia a que veio ao interpretar Piaf na infância, no filme estrelado por Marion Cotillard.

A filha caçula é uma personagem que apesar de não ter muito espaço na história, leva um pouco de calma ao turbilhão de emoções narradas. Elyes Aguis  merece destaque na pele de Fouad, filho de Samir, que ganha as cenas interpretando perfeitamente o menino melancólico, inocente e traumatizado. Ambos atuam como peças chave na criação do presente, uma vez que crianças, ficam alheias às verdades duras dos problemas da vida.

A mistura entre a cultura europeia e a islâmica é algo que merece atenção no filme, assim como o foco de sua narrativa mais nas expressões e atitudes do que nas falas. Os ambientes muitas vezes com cores e iluminação em tons de sépia, e as folhas secas do outono que aparecem tantas vezes contrastam com as roupas sempre escuras dos personagens, o que da um toque poético e belo ao filme, como em um quadro realista.

Apesar da grande sensibilidade ao retratar temas tão atuais sobre relações humanas, as histórias se misturam e o filme acaba ficando com vários personagens em foco, que mesmo tendo sua trama conectada fazem com que o filme fique longo, com ritmo arrastado e lento, o que pode se tornar cansativo para alguns.

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