Um Belo Domingo

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E quando a gente precisa reviver o passado negligenciado e que fez questão de esquecer em nome de um amor? Quando um domingo bota uma pessoa no seu caminho capaz de te fazer querer reviver os monstros, há muito já enterrados? Ocorre uma mudança de perspectiva, e todo o medo já não faz mais sentido.

Un Beau Dimanche, no seu título original, da diretora Nicole Garcia, é um filme delicado que explora a temática do abandono. Baptiste (Pierre Rochefort) é um professor substituto desapegado de raízes que o prendam, que não fica muito tempo em uma mesma cidade. Um dia, ao ver um dos seus alunos, Mathias, ser esquecido na porta da escola, resolve lhe dar uma carona para a casa do pai. Uma série de fatores levam o professor a ficar com a criança no fim de semana, decisão que culmina no encontro dele com a mãe do menino, a endividada Sandra (Louise Bourgoin), também de espírito livre e desprendida, que promete para o filho coisas que não pode cumprir.

Não precisaria nem falar mais nada, não fosse o famoso jeitinho blasé de se relacionar das pessoas nos filmes franceses modernos. Esse definitivamente é um filme para aqueles que adoram a forma despretensiosa de como se desenvolvem os romances no melhor estilo “to fingindo que não quero, mas to morrendo de amor por dentro”. Já se tornou uma característica clássica também o famosos silêncio em que tudo fica subentendido. Aqui mais uma vez, as cenas usam o “diálogo” com o olhar.

Na sua segunda parte, o mistério do professor é solucionado, uma vez que em nome do amor, resolve confrontar a sua família de ricos superficiais lunáticos. Nada muito efusivo, muito menos explícito. Mas surge aí a questão da liberdade, ou da sua ausência. O que instiga para o fato de que a liberdade exagerada pode vir a ser uma forma de abandono. Isso fica bem claro em uma cena em que Sandra e a mãe de Baptiste se confrontam num diálogo, em que uma coloca para outra questões sobre a criação e as atitudes tomadas com relação aos seus respectivos filhos. (O que seria de nós sem companhia?)

O casal de atores chama a atenção pela beleza, o que facilita o apelo romântico do filme, as lindas paisagens e o mar do sul da França contribuem bastante para esse clima. O menino Mathias, interpretado por Mathias Brezot, poderia ter sido melhor aproveitado, e mesmo que ele tenha um papel chave na trama (pois é através dele que todos os personagens se conectam) sua atuação é bastante pontual. O espaço de cada personagem é superficial, o que faz com que nenhum deles nos cative muito. Até mesmo o romance dos dois protagonistas, que era para ser o eixo central da história, parece aéreo, é como se soubéssemos da vida de parentes distantes, sem muito interesse.

A fotografia é belíssima, no entanto não percebi no filme nenhum momento ápice. No mesmo ritmo em que começa, ele tem o seu final. Um domingo calmo, sem fortes emoções, com um desfecho aberto, reafirmando as características desse novo drama francês.

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