Uma Longa Queda

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O filme A Long Way Down, traduzido para o português como “Uma Longa Queda”, do diretor Pascal Chaumeil, é um filme que trata do suicídio e os diversos motivos que levam uma pessoa a tomar essa atitude extrema, sejam eles superficiais ou graves. Quatro pessoas se encontram por acaso no telhado de um prédio na noite de ano novo, numa tentativa de se jogar e dar fim às suas frustrações, esse encontro os faz repensar seus atos e criar um pacto de não se matarem até o próximo dia dos namorados.

Acima de tudo a história é um ode a amizade e como essa pode nos fazer notar a felicidade e superar as tristezas. Como pessoas desconhecidas podem entrar de repente nas nossas vidas e transformá-las para sempre? O filme é uma adaptação do livro homônimo de Nick Hornby e traz muitos elementos do mesmo, se estruturando em contar a vida de cada personagem sob a perspectiva de cada um, dividindo-o em quatro partes.

Pierce Brosnan, o eterno 007, interpreta o papel de Martin, o ex- bem sucedido apresentador de televisão que bota tudo a perder ao se envolver com uma mulher errada, que lhe cai como uma luva, Brosnan nunca consegue deixar de lado sua superioridade de galanteador à la James Bond. Maureen é interpretada pela exótica Toni Collette, que já é uma especialista em interpretar mães amáveis que lidam com situações inusitadas. E apesar de não ser exatamente o seu maior papel, mais uma vez o faz muito bem, levando poesia e leveza às cenas em que lida com o filho deficiente.  A bela Imogen Poots vive Jess, uma jovem rebelde e problemática filha de um político rico. E o entregador de pizza J.J. é vivido por Aaron Paul, um cara perdido, que se sente fracassado e não consegue encontrar sentido na vida depois de tentativas frustradas.  A “love story” do casal jovem para reter a atenção do público romântico, poderia ter sido facilmente deixada de lado, mas fica aí a questão de que no mundo atual só o amor poderá salvar as mentes imersas no desalento.

Um dos seus pontos fortes é a abundância de tomadas externas, o que nos promove um passeio pelas ruas de Londres. Há uma composição de cenas com paisagens cinzas, nubladas, muita chuva e neve, e a frieza dos tons de azul, tudo aquilo que agrava a tristeza de resolver se matar na véspera de um ano que se inicia.

Contribuindo com essa atmosfera , outro elemento muito interessante é o uso da cor branca nos cortes de cena. Falar da morte é falar também de luz, claridade, imensidão, essa ideia que o branco puro, total nos traz, aquilo que assusta e também conforta, a paz. A junção de todas as cores luminosas é branco, sem a luz nossa visão não consegue captar as cores do mundo.

Uma cena que sintetiza bem o filme é quando os quatro estão sentados nas cadeiras dos corredores de um hospital, que poderia ser facilmente confundida com um aeroporto ou qualquer ambiente de passagem da cidade, não fosse pelos trajes hospitalares e pés descalços da jovem Jess. A luz do primeiro dia do ano ilumina todos eles, reflexivos, a ausência do suicídio planejado, aquela momento de ter as esperanças renovadas e um mundo de novas oportunidades pela frente. Em muitos aspectos a história nos remete ao estilo de gosto duvidoso, que é o autoajuda, trazendo contestações: por que nos matar se podemos esperar um pouco mais e tentar ser felizes? Será que a dor não vai passar?

Fazendo coro aos dramas “água com açúcar” modernos sobre relações interpessoais, a história do filme se resume em estar lá, se importar e agradecer, ou pegando emprestado uma fala de um dos seus personagens: “I just wanted to say: thank you for caring”.
Se tudo estiver tão ruim, ter alguém com quem compartilhar momentos é também uma forma de dividir a dor.