O Homem das Multidões

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O filme, dos diretores Cao Guimarães e Marcelo Gomes, retrata um drama moderno: a solidão em meio à grande cidade. A história se passa em Belo Horizonte, mas poderia tranquilamente ser qualquer megalópole lotada, um paradoxo da impessoalidade.

Juvenal (Paulo André) tem uma relação aparentemente profissional com Margô (Silvia Lourenço), ambos trabalham na estação de metrô e são muito solitários, se veem sempre e começam a se relacionar a partir daí. Margô é comunicativa e tenta driblar sua angústia se relacionando com desconhecidos pela internet. Diferente dela, ele parece estar de acordo com a sua solidão. Vive sozinho e fala sozinho, mas ao mesmo tempo, com as pessoas ao redor é um homem de poucas palavras. Passa suas noites em claro, vaga pelas ruas da cidade, observa a vida dos outros e até sorri diante das conversas alheias.

Durante a narrativa, a solidão é demonstrada através do silêncio ensurdecedor, poucos são os diálogos entre os personagens, tornando as palavras, quando ditas, mais profundas e significativas. O que causa um forte contraste com isso é o barulho das ruas e da multidão que se sobrepõe, parece que enquanto Juvenal anda pela cidade em silêncio, todo o ruído ao redor é da sua própria mente.

Fazendo coro aos muitos elementos que remetem ao tema principal, o ritmo do filme é alternado entre calmaria/ silêncio e agitação/ barulho, como numa dualidade entre interior e exterior, tanto ao tratar dos ambientes como das mentes humanas. A Câmera parada e os planos detalhe, longos e silenciosos fazem as cenas se arrastarem, como se o filme estivesse em câmera lenta ou pausado. Sua iluminação e fotografia puxam sempre para os tons de cinza com muitas sombras, o que remete mais uma vez ao monstro de concreto, que é a paisagem urbana.

Analisando o filme esteticamente, seu formato quadrado causa estranhamento, os atores ficam cortados em muitas cenas, e a tela do cinema parece enorme para as imagens, da a impressão que o filme foi achatado, e tudo é visto por uma pequena janela. Segundo os diretores a ideia era justamente passar a sensação de claustrofobia, e fazer uma analogia com a janela do metrô, é através dela que Juvenal enxerga o mundo.

Silvia Lourenço está habituada a fazer papéis dramáticos com delicadeza e esmero, seu olhar melancólico inerente traz um peso ideal para a personagem em questão. Paulo André, integrante do Grupo Galpão de teatro, cai como uma luva como o discreto e calmo Juvenal, de uma magreza rara e barba e cabelos bem claros, consegue trazer para o personagem leveza e introspecção.

Não fica claro para o espectador qual é a relação que os dois nutrem, amizade ou amor, não importa muito definir. É como se criassem uma relação de dependência mútua da presença calada um do outro. Gradativamente ele permite que ela entre em sua vida, agora ele já consegue dormir à noite. Na primeira visita dela a casa dele, ela pede um copo d´água, ele tem apenas um copo para oferecer. Ao final ela volta a visitá-lo, trazendo de presente um conjunto de copos, eles apenas se olham, ele ri, agora ele já não está mais sozinho. Uma ótima metáfora, simples e genial.

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