Une Rencontre

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Sabe aquele filme francês com cara de comédia romântica americana? Bem, é quase isso que a francesa Lisa Azuelos fez, mas com aquela pitada característica de fazer poesia no cinema.

Os atores escolhidos para serem os protagonistas são mestres da sétima arte, populares na França e conhecidos internacionalmente. François Cluzet, que fez a obra prima de Olivier Nakache e Eric Toledano, “Intocáveis”, aparece aqui com menos profundidade mas igual comicidade no papel de Pierre, o advogado que trabalha muito e se dedica nas horas de lazer exclusivamente à esposa, ao seu filho pequeno e à filha adolescente, e eventualmente vai a festas e comemorações de amigos.

Assim, conhece Elsa, vivida pela elegante Sophie Marceau, atriz muito consagrada pelo mundo. Se encontram na festa de lançamento do livro dela, algo casual, são apresentados por um amigo em comum, conversam bastante e logo de cara nasce um clima de romance e atração mútua, no entanto o filme parece forçar uma situação, com diálogos que não parecem naturais para duas pessoas que acabaram de se conhecer.

Já nos primeiros dez minutos de filme, a trilha sonora se mostra muito boa, logo no começo com alguns clássicos como “Que Sera, Sera” e “Happy Together”. O filme teria de tudo para ser mais uma romântica história de amor, não fosse por um fato muito relevante: ele é casado e pretende permanecer fiel por princípios.

Ela está se divorciando, fragilizada e com três filhos jovens, mantém um relacionamento superficial com um menino bem mais novo, algo carnal. Se sente vazia, sem um amor, e um companheiro, situação ideal para se apaixonar perdidamente pela pessoa errada. Ambos se relacionam muito bem com seus filhos e o fato do filme focar nessas relações, faz o espectador questionar o tempo todo sobre o ato de adultério implícito nas situações. Um misto de compaixão por botarem a harmonia familiar a perder, e desejo que ambos sejam felizes juntos vivendo esse amor. A figura do filho mais novo de Pierre, fornece um toque de inocência ao filme, e faz pensar: “Como ele vai conseguir trair a esposa e acabar com a família dessa forma?”

Os diálogos entre os dois deixa sempre tudo às claras, ele admite que a acha atraente, mas diz que é fiel a esposa. Ela diz que seu único tabu são os homens casados. Tudo parece bem surreal ao admitirem a atração mas não se sentirem capazes de ir além, com um tom bem moralista implícito. Partem cada um pra um canto, mas sempre com o pensamento na relação que não tiveram, e nos desejos que reprimiram.

Por mais que fique notório no decorrer da história, a interferência das histórias melodramáticas e comédias românticas, o filme não deixa de lado algumas delicadezas cheias de simbolismos e metáforas, típicas do cinema francês, como quando ela diz que ele tem cheiro de laranja amarga. Isso parece tão profundo.

Por diversas vezes o espectador é enganado com truques de filmagem que fazem crer que o filme avançou para determinado lado, mas na realidade era apenas um sonho, ou devaneio, fruto da imaginação. O filme abusa de recursos de filmagem e enquadramento modernos, ela abre o guarda roupa e já está na boate, os sons diegéticos se misturam aos não diegéticos e no final tudo poderia ser apenas uma alucinação. Nunca saberemos de fato.

A questão que fica presente ao longo de todo o filme é: como largar a família construída sob fortes alicerces, para ir atrás de uma fantasia, uma paixão adolescente? A questão da consciência pesada e as reflexões entre trair ou não trair norteiam a história e é a proposta aí implícita. Ao mesmo tempo, é importante ressaltar que mesmo optando por não consumar o ato da traição, isso não impede que Pierre continue fantasiando e sonhando com Elsa, e que seu casamento comece a entrar em colapso.

A história vira a história de um amor proibido e de um casamento que vai sendo empurrado pelo comodismo das situações presentes. Sendo assim, o filme na realidade é uma “não história de amor”, é sobre a luta contra o desejo e a paixão. Como um conto de amor impossível moderno, há o clichê no melhor estilo Romeu e Julieta, onde o acaso é o que os une na maioria das vezes, proporcionando diversos reencontros.

A questão da física quântica fica clara do meio para o final, o livro que Elsa lança é sobre “amor quântico”, que fala sobre a possibilidade de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Afinal, isso é tudo que Pierre mais deseja. Como na física quântica, no filme tudo se mescla, os lugares e o tempo, tudo pode ser real como pode não ser, ou haver uma realidade que integre todas.

Acredito que esse seja um dos filmes franceses mais previsíveis que eu já vi. A não ser pelo final, que surpreende. Afinal “Para que uma história nunca acabe, ela não deve começar.” Para que fiquem juntos na eternidade, só mesmo nunca tendo se conhecido.

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